O que é a saponificação a frio?

A saponificação a frio - ou método cold process - é um método ancestral de produção de sabão, ainda muito utilizado nos dias de hoje. Com este método, vais ser capaz de criar a reação química “saponificação”, manipulando todos os ingredientes a baixas temperaturas.

Se queres aprender a fazer sabão caseiro, e se já tomaste nota dos ingredientes para fazer sabão e do material de saboaria necessário, agora está na hora de conheceres este método de produção, passo a passo.

Vamos a isso?

Mas antes…uma breve história da saponificação a frio

Quando digo que a saponificação a frio é um saber ancestral, é mesmo verdade! Este método já era usado nas civilizações antigas. Sabemos que, no ano de 2800 AC, os babilônios já combinavam gorduras animais, água e cinzas (que continham hidróxido de potássio, um alcali semelhante ao hidróxido de sódio) para fazerem o seu próprio sabão.

Ao longo da história, outras civilizações, como os egípcios, gregos e romanos, também desenvolveram as suas fórmulas para produção de sabão, sempre de acordo com este método.

Recentemente, o Jerusalem Post noticiou a descoberta do mais antigo workshop de saboaria em Israel, na cidade de Rahat. Julga-se que tem, pelo menos, 1200 anos de existência, e foram encontrados vários vestígios da prática da saponificação a frio.

O sabão cold process, tal como o conhecemos hoje, só surgiu a partir do final do século XVIII, com a descoberta do hidróxido de sódio. Esta substância permite-nos obter uma reação química mais controlada e é, por isso, um ingrediente fundamental.

Ler mais: Cuidados a ter com o hidróxido de sódio na saboaria

Como funciona a saponificação a frio?

Antes de mais, tens de conhecer o conceito de saponificação.

Saponificação é uma reação química que ocorre entre um éster (solução oleosa) e uma base (solução alcalina), e que dá origem à formação de sabão e glicerina.

Ao entrarem em contacto, a solução oleosa e alcalina vão tornar-se uma substância mais espessa e uniforme que, depois de vertida no molde, vai endurecer e dar forma a uma bela barra de sabão, tal como tradicionalmente conhecemos.

Agora…saponificação a frio. De acordo com o método cold process, todos os ingredientes devem ser manuseados a baixas temperaturas, de forma a preservar as suas propriedades.

Há calor envolvido na saponificação a frio?

Por irónico que pareça, sim. Ainda que este método seja “a frio”, vai haver sempre algum calor envolvido. Isto acontece porque:

  • quando juntamos o hidróxido de sódio à água (solução alcalina) há uma formação natural de muito calor (que pode atingir os 100ºC);

  • se tivermos de derreter manteigas ou óleos vegetais (por exemplo, karité ou coco), vamos ter, inevitavelmente, de sujeitar estes ingredientes a algum calor.

Na saponificação a frio, usa sempre o calor mínimo necessário. Idealmente, ambas as soluções devem estabilizar nos 35ºC - 40ºC. Este intervalo deve ser a tua temperatura de referência.

Saponificação a frio passo a passo

Pronto/a para fazeres o teu primeiro sabonete artesanal cold process? Agora que já conheces a essência da saponificação a frio, segue os seguintes passos:

Preparação

  1. Antes de começares, prepara o teu espaço de trabalho. Desimpede o balcão ou a mesa de trabalho e prepara os teus utensílios e material para saboaria.

  2. Desinfeta todos os utensílios com álcool. Lembra-te de que o sabão é um produto cosmético sendo, por isso, necessário minimizar qualquer possibilidade de haver contaminação.

  3. Prepara o teu molde. Existem moldes com forros de silicone que são muito práticos. Se trabalhares com outro tipo de molde, forra-o com papel vegetal nesta altura e deixa-o já pronto.

  4. Equipa-te. Veste o avental e as luvas, coloca os óculos de proteção e apronta a máscara.

  5. Pesa todos os ingredientes individualmente e reserva-os. Deves pesar tudo em gramas, inclusive os líquidos.

Mistura dos ingredientes

  1. Começa pela solução alcalina. Como este passo é delicado, recomendo-te que, antes de avançares, revejas os cuidados a ter com o hidróxido de sódio na saboaria. Quando tudo estiver pronto, verte cuidadosamente os cristais de hidróxido de sódio na solução alcalina (nunca o contrário) e mexe até que eles se dissolvam na água. Nesta altura, a solução alcalina vai atingir temperaturas muito elevadas. Podes arrefecê-la mais rapidamente num banho maria gelado.

  2. Prepara a solução oleosa. Enquanto a solução alcalina arrefece, trata dos óleos vegetais (OV). Derrete os sólidos e/ou manteigas vegetais em banho maria e mistura tudo. Separa sempre os líquidos dos sólidos e evita submeter os OV líquidos a calor desnecessário. Assim, vais ser capaz de preservar as suas propriedades.

  3. Nivela as temperaturas de ambas as soluções. As soluções alcalina e oleosa, idealmente, devem rondar os 37ºC. Pode haver uma diferença de 10ºC entre ambas, mas não ultrapasses este limite. Se, por exemplo, a solução alcalina estiver a 39ºC e a solução oleosa estiver nos 33ºC, podes misturá-las.

Saponificação

  1. Verte a solução alcalina na solução oleosa. Recorre a uma espátula ou à varinha mágica para evitares a entrada de ar e a formação de bolhas.

  2. Mexe o preparado até atingires o traço desejado. Com cuidado e de forma alternada, vai usando a varinha mágica e a espátula para misturar muito bem o teu sabão. Vais notar uma mudança na cor e na textura, mas é normal. Tal como quando fazemos leite creme, o traço é a consistência desejada. Quanto mais mexeres, mais grosso o teu sabão vai ficar. O tipo de traço depende sempre do teu objetivo. Se, por exemplo, quiseres fazer um design elaborado, trabalha com um traço fino. Desta forma, tens mais tempo para fazer tudo com calma e uma maior margem de manobra.

  3. Adiciona os óleos essenciais e outros ingredientes. Alguns ingredientes só são adicionados após a saponificação propriamente dita. Falo de óleos essenciais, fragrâncias, coloração, agentes esfoliantes, ou outro tipo de ativos cosméticos. Atenção ao uso das fragrâncias porque muitas delas aceleram o traço! Nem sempre é fácil prever o comportamento do sabão. O meu conselho é quve, para cada fórmula nova, faças sempre um pequeno batch experimental. Se tudo correr bem, avança para quantidades de sabão maiores. Desta forma, sabes mais ou menos com o que podes contar, e evitas o desperdício de matérias primas.

Verter para o molde

  1. Verte o sabão para o molde. Tem cuidado para minimizares a entrada de ar. Quando o sabão estiver disposto no molde, pega nele e dá umas pequenas “pancadinhas” em cima do balcão. O objetivo é que o sabão assente e que potenciais bolhas de ar se dissipem.

  2. Decora o teu sabão. Esta é das melhores partes! Podes usar elementos como flores secas, ou simplesmente fazer bonitos efeitos com a própria textura do sabão. Espreita o meu perfil no Instagram e vê alguns exemplos decorativos. Aqui, o céu é o limite!

Cura e corte do sabão

  1. Deixa o sabão repousar durante 24 a 48 horas. Durante este período, ele vai endurecer e continuar o seu processo de saponificação. O isolamento térmico, nesta fase, é importante. Existem moldes que trazem uma tampa de madeira que ajuda a conservar o calor. Também podes usar fita filme e uma toalha, por exemplo.

  2. Retira o sabão do molde e corta-o. Após 48 horas, retira o sabão do molde com cuidado e corta-o. Podes usar um cortador de sabão próprio, ou recorrer a uma faca e a uma tábua de corte. A espessura é, em bom português, à escolha do freguês, mas pensa sempre na componente ergonómica.

  3. Deixa o sabão a curar. O processo de saponificação a frio não termina no momento do corte. Prolonga-se durante o processo de cura, que demora entre 4 a 6 semanas. Durante este período, o PH estabiliza (a soda é neutralizada), a água evapora e o sabão endurece. Deixa o sabão a curar num local sem exposição solar direta, bem ventilado e, acima de tudo, seco.

Vantagens da saponificação a frio

A saponificação a frio é o meu método preferido e aquele que mais uso. De acordo com a minha experiência, as principais vantagens são:

  • é um processo mais rápido;

  • é mais adequado para fazer maiores quantidades de sabão;

  • submeter os ingredientes a baixas temperaturas faz com que seja possível preservar as propriedades que queremos incorporar no nosso sabão;

  • não é necessário medir o PH do sabão;

  • permite trabalhar designs mais arrojados;

  • o aspeto final das barras de sabão é mais uniforme e bonito.

Desvantagens da saponificação a frio

A única desvantagem da saponificação a frio é o tempo de cura elevado. Esperar 4 a 6 semanas para experimentar um sabão é, efetivamente, um aborrecimento para almas impacientes. Mas tudo o que demora, normalmente, vale a pena :)

Saponificação a frio: faz o teu primeiro sabão!

Pronto/a para fazeres o teu primeiro sabão cold process? Deixo-te aqui uma receita simples de sabão caseiro com azeite português (inclui um PDF para impressão gratuito), pensada especialmente para quem vai fazer sabão pela primeira vez. Atreve-te e desfruta!

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